Por que ler com e para crianças tão pequenas? Este é o debate proposto por Érica Lima, Fabíola Farias e Raquel Lopes nesta publicação, que reúne especialistas da leitura na infância. Confira, abaixo, o texto de apresentação.

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Ler em família: de projeto a política pública

Érica Lima, Fabíola Farias e Raquel Lopes
Organizadoras

Este livro é um dos desdobramentos do projeto Ler em família: leitura e literatura na primeira infância, desenvolvido pela Fundação Municipal de Cultura em parceria com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente.

A iniciativa foi estruturada em dois grandes eixos. O primeiro contempla a qualificação dos espaços, serviços e atividades oferecidos às crianças muito pequenas e às suas famílias na rede de bibliotecas públicas da Fundação Municipal de Cultura e a criação de pequenos pontos de leitura em três casas de acolhimento institucional para esse público – Acolhimento Institucional Colméia, Associação Árvore da Vida e Acolhimento Institucional Casa Esperança II -, além do CERSAMI Noroeste – Centro de Referência de Saúde Mental da Infância. Cada biblioteca e instituição participante receberam mobiliário e um acervo de quinhentos livros, criteriosamente selecionados por uma equipe interdisciplinar formada por especialistas em literatura e bibliotecários.

No segundo eixo, estão as chamadas ações de formação, que têm como objetivo discutir com os profissionais – professores, bibliotecários, mediadores de leitura, agentes públicos e comunitários, cuidadores de crianças etc. – e com as famílias a importância da leitura na primeira infância. Mais que afirmar e exaltar os benefícios da leitura, como comumente vemos em campanhas publicitárias sobre o tema, tínhamos como grande desafio para o Ler em família promover uma reflexão sobre o que considerávamos naquele momento, e ainda hoje, o fator determinante para o desenvolvimento do projeto: as muitas respostas à pergunta por que ler com e para crianças tão pequenas? Para nós, essa seria a questão que convocaria as pessoas a pensarem no assunto, para além do fascínio inicial pelas histórias e pelos livros bonitos, para além do senso comum que diz que ler é importante e faz bem para as crianças.

A essa pergunta original – de origem, de começo – outras se juntariam, apresentando-se tanto como desdobramentos para a oferta de livros, serviços e atividades para a primeira infância e suas famílias nas bibliotecas públicas municipais de Belo Horizonte, quanto para a necessária renovação do mesmo questiona- mento: por que ler com e para crianças tão pequenas? Ao projeto interessava que essa pergunta não se calasse, que para ela não houvesse respostas prontas, mas sim que os profissionais, especialmente, se dedicassem a respondê-la continuamente, ressignificando-a a partir de vários aspectos: linguísticos, sociais, econômicos, afetivos, políticos, culturais. Não nos interessava apresentar as nossas respostas, mas sim oferecer leituras e aulas teóricas, relatos de experiência e momentos de debate para que cada um, de posse de algumas respostas, muitas perguntas e uns tantos conflitos, pudesse construir seu próprio chão.

Tendo isso em vista, realizamos, em vários espaços – bibliotecas, centros culturais, associações comunitárias, creches -, a oficina Os livros, isso é bom para os bebês (1), recebendo como participantes profissionais que lidam com crianças muito pequenas em escolas, UMEI’s, bibliotecas, creches, e também pais, mães e avós. Promovemos também o 10o Seminário Beagalê, com o tema Leitura na primeira infância, cujos textos apresentados pelos palestrantes fazem parte desse livro. Nessa ocasião, todos os participantes receberam de presente o livro A casa imaginária: leitura e literatura na primeira infância, de Yolanda Reyes, uma referência internacional sobre o tema.

Também faz parte do eixo de formação a cartilha As crianças e os livros (2), com tiragem de dez mil exemplares, que traz sugestões para a leitura com e para crianças pequenas no ambiente familiar, além de um guia com os endereços das bibliotecas pú- blicas e comunitárias de Belo Horizonte. Sua distribuição está sendo feita em bibliotecas, centros culturais, associações comu- nitárias e espaços de atendimento à infância na cidade.

O projeto Ler em família trouxe para as bibliotecas públicas municipais de Belo Horizonte um olhar específico para a primeira infância e criou uma possibilidade de acesso a livros e de leitura nas casas de acolhimento institucional e no CERSAMI participantes. De um projeto piloto, a leitura na primeira infância caminha na direção da política cultural da cidade, reivindicando esforços e recursos para sua permanência.

É preciso ressaltar que este é um trabalho de muitas pessoas, que juntas caminharam para que tudo acontecesse. Registramos o nosso agradecimento às equipes técnicas da Fundação Municipal de Cultura, da Secretaria Municipal de Políticas Sociais e do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. E esperamos que as reflexões postas neste livro contribuam para a perenidade da pergunta por que ler para crianças tão pequenas?, criando as condições sociais, culturais e materiais para a promoção da participação na cultura escrita na cidade desde a primeira infância.


1Essa oficina foi elaborada por Érica Lima e ministrada por ela e Raquel Lopes.

2 As sugestões para a leitura com e para crianças pequenas em seu ambiente familiar da cartilha As crianças e os livros estão reproduzidas neste livro.