“Tal qual Dom Quixote, sou amiga de ler até os papéis esfarrapados das ruas, a que procuro conferir sentido enquanto produção cultural e sociopolítica”, conta-nos a escritora Nilma Lacerda. E você? Qual o papel literário em sua vida?


Literatura: um reconhecimento em pauta

Nilma Lacerda

Ricardo Piglia abre sua obra O último leitor com o que chama de prólogo, e que de fato o é, tomado no sentido primeiro de parte inicial da tragédia, na qual se faz a exposição do tema da peça. Na narrativa sobre um homem que mantém em casa uma maquete de Buenos Aires, na qual cada detalhe da cidade está representado, embora alterado pela imaginação do autor, Piglia evidencia que “[…] o que podemos imaginar sempre existe, em outra escala, em outro tempo, nítido e distante, como num sonho.”(1) A supremacia da literatura na experiência humana é o que está em pauta: o que ela representa existe tal qual foi representado, ainda que em diversa frequência, para ficarmos com um termo da física. Na obra de Piglia, o tema é o leitor cuja vida está entregue ao ato de ler. Ler literatura, porque é a única leitura gratuita, a que se impõe por desnecessária, e traz sentido à vida. É disso também que tratamos aqui, e por isso creio ser útil um prólogo como o do argentino.

A mulher inesquecível

O cabelo cai no rosto e atrapalha a moça. Ela empurra o cabelo para trás, ele logo se solta, cai novamente no rosto. Ela se vira para a mesinha de cabeceira, abre a gaveta com cuidado, remexe lá dentro, volta com a mão vazia. Desiste de manter o cabelo preso, aperta os olhos, morde a ponta do polegar num gesto compulsivo. Volta a escrever. Sentada na cama, a vela já no fim, as costas muito curvadas, olha sem parar para a porta. Acomoda melhor o caderno, está escuro mesmo, mal enxerga os vultos das irmãs nas outras camas. Como dormem! Puxa a camisola para cima, dobra as pernas, traz o castiçal para mais perto, fica meio de lado para aproveitar a luz. De repente, é tanta luz, a lâmpada acesa e o rapaz que levanta o punho num gesto ameaçador, vou chamar papai, diz, sai brusco e vociferando. A moça apaga a vela, pega caderno e lápis, afasta a mesinha de cabeceira, levanta a tábua do chão, põe tudo dentro de um buraco. Recoloca a tábua no lugar, bota a mesinha em cima, mal tem tempo de se deitar. O rapaz está de novo na porta, o rapaz e o homem de cinto dobrado na mão, me mostra o que está escondido, ele rosna. “Não tem nada escondido nesta casa.” – a moça responde, dura. O homem avança e começa a bater nela com força, com muita força. A moça sufoca os gritos e vai se esquivando das correadas como pode, protegendo rosto e mãos. O homem para de bater, arranca-a da cama, empurra-a contra a parede, mostra a raiva de touro levantando o colchão pesado, jogando-o para cima dela, que não pode mais negar – o livro está em cima do estrado. Ele pega o livro, esfrega na cara dela e logo em seguida Rebecca – a mulher inesquecível – vai caindo no chão, rasgada, despedaçada. Os olhos da moça não se desprendem das mãos violentas do homem, dos gestos cruéis, cada vez mais rápidos. O livro todo rasgado, ele toma outra vez o cinto, enrola no pulso e fica balançando a ponta com a fivela, para lá e para cá. De repente, grita, dá-me esta mão!, agarra o braço da moça, puxa-o para si, desfere a última chibatada sobre a mão fechada em defesa. O grito lancinante escorre no vácuo. O pai se encaminha para a porta, torce o comutador da luz até quebrar, sai e fecha a porta. O escuro cai como cortina pesada, e só então as irmãs levantam para ver o que aconteceu.


Salvador Dali, em uma de suas primeiras ilustrações de Don Quixote de la Mancha (1946)

Esta leitora

Penalizada pelo livro que escondia e não pelo ato de escrever, que conseguiu manter oculto, esta leitora é uma representação que terá me antecedido enquanto leitora e escritora, em outra escala, outro tempo, e me chega de forma distante e nítida, em paradoxal antevisão. Neste lugar tríplice em que a escritora, a professora e a viajante cruzam seus olhares, posso discutir experiências e inquietações. Por uma questão de gênero, talvez, desenvolvi uma percepção aguda para o sentido de cada tarefa, nos atos rasos da existência cotidiana. Para que servia afinal lavar o banheiro, se o que desejava e era pleno de sentido estava em ler ou estudar? Mais tarde, o pensamento formulado por um personagem de Gabriel García Márquez me atinge de forma contundente.

Algum tempo haveria de se passar antes que Aureliano se desse conta de que tanta arbitrariedade tinha origem no exemplo do sábio catalão, para quem a sabedoria não valia a pena se não fosse possível se servir dela para inventar uma nova maneira de preparar o feijão.(2)

Não sei se faço melhor feijão com a sabedoria que tantos me ajudaram a construir, ou se a observação procede para as pessoas a quem ajudo nesse processo. Vez por outra, lavo banheiros, sabendo para que serve fazê-lo, mas na sabedoria que me é dada de forma entranhada, a literatura, encontro a angústia necessária para me fazer responsável em minha liberdade, o limite para me conscientizar de minha natureza e o gozo de reconhecer o pendor humano para a representação, que permite a maleabilidade entre sonho e realidade, como afirma Piglia, com outras palavras. Saber da literatura me ajuda a lavar o banheiro em prol do humano.

De acordo com o sábio catalão evocado por Aureliano Buendía em Cem anos de solidão, a sabedoria deve estar a serviço de um gozo, concebido por cada um em sua necessidade. Com a clareza de não servir para nada, a não ser a partilha de porções do humano, a presença da literatura no cotidiano da nação brasileira vem ganhando corpo visivelmente, e seu suporte básico, o livro, ocupa o lugar de objeto de desejo para muitas pessoas que, por gerações, estiveram afastadas dos caminhos de sua circulação. Não só não chegavam até ele, como sequer concebiam os sentidos possíveis para sua existência e para as relações pretendidas de um sujeito com o objeto.

Em meados da década de 1980, uma conjunção de fatores, entre os quais a eclosão das vozes das minorias no cenário internacional e a redemocratização do país conferem visibilidade a uma luta sem bravura aparente, ligada ao miúdo, mas vislumbrada naquilo que é, realização do desejo de uma nação mais justa, mais igualitária, e tanto quanto possível livre de mentiras políticas. A Associação de Leitura do Brasil, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, as ações guiadas pelos pensamentos de Antonio Candido, Anísio Teixeira e Paulo Freire foram corrente viva sob a superfície aparentemente congelada do rio, no tempo em que parecia circular uma única verdade por suas camadas visíveis e solidificadas. Essa conjunção de reflexões e reforços permite à leitura entrar em cena, lentamente, mas com a salvaguarda de ser um direito de todas as pessoas.

O direito à literatura

O artigo de Antonio Candido, publicado em 1988, é um texto revolucionário, que ousa pregar o direito de todas as pessoas a bens incompressíveis, esses que não podem ser refreados, reprimidos, coagidos. O crítico literário reconhece o sonho como inerente ao humano, um direito da espécie, portanto. O direito ao sonho tanto remete ao alimento da alma em tempo de repouso, quanto ao caminhar sobre o futuro, o que costumamos fazer com frequência, desejando, planejando, contornando linhas para a vida num espaço que é ainda pura configuração. Ao advogar o direito ao sonho, Candido legisla sobre o tempo. O uso do tempo. Nada iguala mais as pessoas do que a posse de igual quantidade de tempo de ócio, tempo em que o trabalho cessa, o corpo folga e repousa, na regeneração necessária. Separado do tempo de produção material, o ócio deve ser empregado por cada pessoa de forma arbitrária, subjetiva. Tanto pode ser o tempo para esvaziar-se de todo sentido, quanto para buscar sentidos. Tempo para o exercício de uma vida sem sobressaltos, ou tempo para a prática de sobressaltar-se, característica da condição humana. A cada um aquilo que aprouver. Como o que nos apraz é a literatura, o tempo de ócio, em parte, nos serve a ler literatura, ainda que ler literatura demande forte trabalho íntimo.

João Adolfo Hansen, no significativo artigo “Reorientações no campo da leitura literária” observa que há poucos dados sobre os modos de ler, a maior parte deles advindo de leitores profissionais, críticos ou escritores, que costumam declarar em suas memórias a forma como leem. Por que Hansen considera importantes essas informações? Por falar da relação do sujeito com o livro literário? Por revelar a rede de circulação dos textos literários? Por permitir avaliar variadas formas de apropriação do texto e produção do sentido? Para saber se avançamos em termos de fruição ou se não nos afastamos muito da leitura tomada como decodificação de sinais e boas respostas aos testes oficiais? Em suma, neste tempo em que a leitura se afiança como bem comum, estaríamos a sustentar projetos inócuos de leitura, formação de leitores sem leitores? Muita festa, poucos comensais? Minha experiência e as pesquisas empíricas que costumo desenvolver confirmam a propriedade da inquietação de Hansen. De um lado, pensamento e práticas avançam: a literatura está cada vez mais disponível como objeto de fruição para um número maior de pessoas; de outro lado, a literatura é lida sem atenção ao projeto estético inerente à sua natureza.

Ler no fio da história, ler em busca do escândalo, ler aplicando modelos. Ignorado o conceito de representação, descuidado o estatuto da ficção, a leitura se abandona de si para ser tomada como ícone do contemporâneo, um contato, por via do autor, com uma vida supostamente glamorosa. Adolescentes em frenesi à espera da estrela da bienal do livro não são leitores, mas fãs, e tanto faz, nesse sentido, que o produto de seus desejos seja um livro, um filme, um rock. Atividade para a qual sempre serão precisos disposição e ócio, a leitura precisa ser construída como valor junto às classes sociais menos favorecidos para ser efetivamente praticada. As classes dominantes sempre souberam desse valor e dele se apropriaram, desde que a tecnologia da escrita foi inventada, construindo em torno da leitura ora mistérios, ora impossibilidades. Voltemos ao prólogo. A leitura é feita às escondidas, tanto quanto a escrita, submetida uma e outra ao castigo, conforme a vontade do tirano, que toma a cena, determina as ações legítimas.

É possível que ler não seja ainda um ato legítimo, neste país. Vinculado ao exercício de uma classe social, constituindo-se o livro em crachá ou comenda distintiva(3), no dizer de Hansen, o ato de ler é considerado por muitos um ato supérfluo, inerente ao ócio que não é autorizado a todos os indivíduos. Identificam-se, nesse sentido, várias modalidades discursivas que costumam contrapor tarefas consideradas produtivas à improdutividade da leitura, vista de forma geral como não trabalho. Queixa recorrente de professoras que trabalham na biblioteca escolar, a leitura é desvalorizada em relação ao conteúdo a ensinar ou às tarefas da administração escolar. Quanto ao bibliotecário, não é, muitas vezes, considerado parte envolvida no processo pedagógico. A própria biblioteca não costuma ser considerada como espaço determinante na formação da subjetividade, inerente à construção do conhecimento.

A letra viva

Tal qual Dom Quixote, sou amiga de ler até os papéis esfarrapados das ruas (4), a que procuro conferir sentido enquanto produção cultural e sociopolítica. Amigos e familiares me ajudam vez por outra nessa tarefa, como Alexandre Brandão e Maíra Lacerda, que me falaram de um grafite circulando pela cidade, no início de 2014, “Fui crime… serei poesia”. Alexandre me manda a foto do grafite na Pedra do Sal, no morro da Conceição, zona portuária do Rio, região de resistência da cultura africana. A consistência da literatura, uma das propostas de Ítalo Calvino para este milênio, mostra-se na frase anônima entregue à cidade. Remete, em minha acepção, ao episódio da chamada Inconfidência Mineira, transformado em um dos mais belos poemas em língua portuguesa, o Romanceiro da Inconfidência. Talvez não fosse tão longe o grafiteiro, e pensasse no crime de perto, dando corpo a um novo gênero, a elegia póstuma, que tem sido encontrada em muros de cidades como Rio, Niterói, São Gonçalo. Fruto do louvor e da saudade aos que tombam na guerra do tráfico, textos comoventes, desenhos instigantes transformam o crime em poesia. Multiplica-se por todos a dor que era de poucos, como fizeram Cecília Meireles e Luiz Ruffato. Dos Inconfidentes de Minas à inconfidência possível na São Paulo contemporânea, o diálogo entre as obras se afirma, reafirma – Eles eram muitos cavalos (5) e ninguém sabe seu nome, sua pelagem, sua origem (6).

A consciência da literatura e de seu valor estampam-se claramente no grafite, que evidencia também o poder da escrita enquanto questionamento e convocação à empatia. Em entrevista a esta autora, Eduardo Galeano narra uma conversa com Alejo Carpentier.

Era uma ditadura pré-militar ainda lá por 72; em 73 já virou ditadura mesmo. Houve aí um período com muita gente presa, em casernas, destacamentos policiais; o país inteiro estava convertido em prisão quando chegou a ditadura no meu país. Então, naquele período prévio, que tinha os sindicalistas, companheiros militantes, presos numa caserna em condições muito incômodas, horríveis, e sem nenhuma repercussão, porque a situação do país impedia que essas situações, esses horrores fossem difundidos, e um dia chega a eles um romance de Alejo Carpentier, o grande escritor cubano, e um deles começa a ler em voz alta (era O Século Das Luzes, creio) páginas que estavam descrevendo uma navegação e uma tormenta em alto mar, e as olas e os barcos, e a fúria da natureza, do ar, das águas bravas. Aquela navegação era um ato de liberdade insuportável para presos, porque os presos ficavam mil vezes mais presos ven – escutando aquilo que quando não escutavam, contra o que a gente supõe, ou contra experiências de outros que, lendo páginas de liberdade, conseguem fugir, conseguem escapar duma situação prisioneira, mas para eles a experiência foi – Pararam de ler. Não era suportável. Era impossível aguentar aquilo, porque eles viviam a experiência como uma contradição tão – violentíssima, em relação à situação real que estavam vivendo. Pois tem também outras possibilidades: aquele prisioneiro que, lendo – isso salva muitas pessoas de acabar se convertendo numa – numa coisa, incapaz não só de viver em liberdade, incapaz até de lembrar que a liberdade existe, mas no caso deles não foi assim. Contei para Carpentier essa história, em Paris, e falei pra ele: – Você, Alejo, tem que receber isso como uma homenagem, porque significa que a sua capacidade de transmitir a vida, a vida do barco, a fúria dos elementos, esse delírio de liberdade, da navegação em alto mar –, que você tem uma capacidade de transmitir isso com tal potência que os prisioneiros não podiam aguentar. E ele: – Sim, é verdade, é verdade, sim. – Não, não é contra você, é a favor – disse. – Isso fala muito bem do que você escreve: não é letra morta. Essas palavras que estão nas tuas páginas não são letra morta. Elas são palavras vivas, perigosíssimas. Aí, ele ri: – Perigosíssimas, você acha? – Sim, às vezes, sim, perigosíssimas (7).

Não é letra morta, diz Galeano. Como o jagunço que Leminski criou em “Gente do Conselheiro” comunica, de forma muito viva, a Euclides da Cunha a tarefa que tem pela frente: o que acontece em Canudos precisa ser contado, e contado bem direitinho (8). Para tal, sua vida será poupada. Sob mira de arma, Euclides jura e cumpre a promessa feita ao jagunço. Em Os sertões, o crime se torna poesia, ou melhor, passa de erro a verdade.

Na sociedade brasileira, a letra tem ficado viva, apesar de elementos e ações contrárias. No campo da educação e da leitura, pode-se falar em certo procedimento esquizofrênico, em que uma das mãos retira o que a outra dá, ou, em melhor português, fazem da biblioteca escolar um cartão de visitas, mas o profissional encarregado de mantê-la aberta sofre deslocamentos ao sabor das necessidades do cotidiano, compram-se acervo, e se fecham bibliotecas, alardeia-se um exame nacional para acesso às universidades mais justo e igualitário e a literatura desaparece, diluída em meio às democráticas tiras de quadrinhos em jornal. Apesar dessas constatações, a leitura está em cena, em letra viva, como dito. É inegável o seu reconhecimento, nas perspectivas que aqui são levantadas.

Candido expôs a ação da leitura literária na humanização do indivíduo, Galeano narrou um episódio que atesta o poder da literatura para além dos clichês habituais, Leminski expõe o compromisso a que se deve ater a literatura.

Disfunções do contemporâneo

É próprio do nosso tempo a consideração dos bens de leitura (9), isto é, a literatura estendida como fruição a todas as pessoas. O próprio conceito de literatura recebe contornos mais distendidos, sem que a crítica feche limites aos gêneros, tal a rapidez com que são gerados paradigmas de expressão literária, em correlação direta com a inclusão de novos suportes e de novas camadas de fruidores. Em seu artigo, Antonio Candido pontua com clareza o que chama de literatura: “[…] todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura […]” (10)abrigando aí o larguíssimo espectro da produção artística vinculada ao verbal.

Na sua aula inaugural do Collège de France, Antoine Compagnon afirma que literatura é o que se chama de literatura, evidenciando, como sempre observou Chartier, a força da comunidade de leitores na produção de sentidos de uma época. Para Compagnon, o próprio da literatura é “[…] Um saber insubstituível circunstanciado e não resumível sobre a natureza humana, um saber de singularidades” (11). Esses autores, cada um à sua maneira, expressam a mesma consideração de Piglia, que traz o olhar de Borges, em que tudo pode ser lido como literatura, sem prescrições quanto a remédios ou venenos. Phármakon, o texto, será um ou outro, conforme a dose e a forma de administrá-la. No entanto, é preciso ter claro que literatura é uma experiência estética, em vinculação estreita com a ética. Os textos inscritos na memória da humanidade por suas virtudes estéticas e de questionamento existencial não podem ficar sujeitos a flutuações conceituais ou históricas, que considerem como primordial o gênero ou a produção do momento, desconsiderando construção e tradição. Em suma, conforme alerta Luís Augusto Fischer, numa prova do ENEM, Drummond e uma tirinha de jornal não são equivalentes em termos de experiência estética e ética (12).

Se a literatura avança no reconhecimento de sua especificidade e poder, é preciso ter claro que segue em paralelo o risco de seu desvanecimento. Teóricos e escritores evidenciam as particularidades da leitura literária, que permitem realizar exercícios de espírito vitais ao humano: colocar-se na pele do outro, andar com calçados alheios. A linguagem poética, ao diferir do uso comum e causar perturbação, provoca o deslocamento do sujeito, implicado então em necessária avaliação de si e do mundo. Dádiva do tempo, a elaboração do sentido advém de uma tessitura mental lenta, que requer com frequência silêncio e isolamento. No tumulto, o grão da palavra não germina, impedindo que o leitor aceite a representação proposta pelo autor, tanto quanto essa pele temporária a abrigá-lo no tempo da leitura. Madame Bovary sou eu, diz Flaubert. Madame Bovary sou eu, leitora, pode dizer cada uma de nós. Alice sou eu, em viagem ao interior de mim mesma, e o eu de mim pode perdurar por cento e cinquenta anos. Ou não. A liberdade é dada.

No projeto de Calvino, a consistência da literatura teria sido expressa pela obra de Melville, Bartleby, o escriturário. Evidencia-se no protagonista a negação ao ato sem sentido, a recusa a ser alimento da engrenagem. As paredes lisas à frente de Bartleby são a alternativa a um sistema de automatismos e impossibilidade de reconhecimento humano. Só a simpatia em relação à resistência dele pode narrá-lo, em toda perplexidade. Seu narrador, que é seu próprio empregador, é capaz de traduzir essa realidade (13).

“Fui crime… serei poesia” – o grafite no Morro da Conceição fala da tradução de uma coisa a outra. Traduzir é o ato essencial da literatura.

A máquina sinóptica

A literatura como máquina sinóptica, que permite ver de uma só vez as diversas partes de um conjunto, síntese de vida. Tal a posição de Piglia, Cervantes, Kafka, Shakespeare, Machado, Bojunga, Colasanti. Máquina de reconhecer e narrar as surpreendentes e inesgotáveis faces do humano, experimentando o desconcerto e a perplexidade frente a essa multiplicidade que escapa a qualquer previsibilidade porque o humano é um ser que, na concepção do filósofo Denis Rosenfield (14), não está pronto, e a confiança de saber que as representações podem constituir-se configurações desejadas do real. “Eu vi o lampiãozinho”, diz a pequena e miserável Else, em “A casa de boneca” (15), e no pequeno objeto refaz-se um mundo que provavelmente nunca virá, mas que, por desejado e vislumbrado, existirá e resistirá na lembrança de tantos quantos lerem ou ouvirem o conto, no exercício da arte da réplica que é a leitura. Tal qual a luz no laboratório do fotógrafo no bairro de Flores, no prólogo à obra de Piglia, ficará reverberando na memória do leitor, distante e minúscula luz, ponto a resumir o mundo. Aturdido após a visão da maquete, o visitante é interpelado pelo fotógrafo que pergunta: viu? À resposta afirmativa do outro, diz: – pois então vá, e conte (16).

Pode-se dizer de outra maneira a literatura?


Referências

1 PIGLIA, Ricardo. O último leitor. 1a. Reimp Trad. Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 17.

2 MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. 15. ed. Trad. Eliane Zagury. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. p. 341.

3 HANSEN, João Adolfo. Reorientações no campo da leitura literária. In: ABREU, Márcia; SCHAPOCHNIK, Nelson (org.). Cultura letrada no Brasil: objetos e práticas. Campinas, SP: Mercado das Letras, Associação de Leitura do Brasil (ALB); São Paulo, SP: Fapesp, 2005. p. 20.

4 CERVANTES, Miguel de. O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha. Trad. Viscondes de Castilho e Azevedo. Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar Ltda, 1960. p. 124.

5 RUFFATO, Luiz. Eles eram muitos cavalos. 6. ed. rev. Rio de Janeiro: Record, 2007.

6 MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. São Paulo: Círculo do libro, s/d. p.262.

7 GALEANO, Eduardo. Entrevista a Nilma Lacerda. Montevidéu, Café Brasileiro, 12 de fevereiro de 2004. Registro em fitas cassete. Arquivo do projeto Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. 8 LEMINSKI, Paulo. Gente do Conselheiro. In : ___. Gozo Fabuloso. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2004.

9 LACERDA, Nilma Gonçalves. Casa da Leitura: presença de uma ação. Filosofia e perfil da Casa da Leitura – Programa Nacional de Incentivo à Leitura / PROLER. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; Casa da leitura / Proler [2002] p. 12.

10 CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: ___. Vários escritos. 4. ed. reorganizada pelo autor. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul; São Paulo: Duas Cidades, 2004. p. 174.

11 COMPAGNON, Antoine. Literatura para quê? Trad. Laura Taddei Brandini. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009. p. 47.

12 FISCHER, Luís Augusto et alii. A literatura no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). In: Nonada. Nonada Letras em Revista, 2012:18. Disponível em seer.uniritter.edu.br/index.php/nonada/article/download/568/358
Acesso em 20/01/2016.

13 MELVILLE, Herman. Bartleby, o escriturário; uma história de Wall Street. Trad. Luís de Lima. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

14 ROSENFIELD, Denis. Do mal: para introduzir em filosofia o conceito de mal. Trad. Marco A. Zingano. Porto Alegre: LP&M, 1988.

15 MANSFIELD, Katherine. A casa de boneca. In: ___. Aula de canto. Trad. Edla Van Steen e Eduardo Brandão. São Paulo: Global, 1984 (Col. Histórias Inesquecíveis) p. 159.

16 PIGILIA, R. Op. cit. p. 16.


Texto originalmente apresentado no Primeiro Seminário do Movimento por um Brasil Literário.
Que é isso que a literatura – e só ela – tem a oferecer que nos põe em movimento?
Casa de Rui Barbosa
2 e 3 de dezembro de 2015