A alemã Jella Lepman levava livros em um ônibus para as crianças que viveram a Segunda Guerra. E o transformou na maior biblioteca infantil e juvenil do mundo.

A Internationale Jugendbibliothek (IJB) é sediada em um castelo medieval na cidade de Munique, na Alemanha. O espaço ficou conhecido como “O Castelo dos Livros”. No texto abaixo, publicado originalmente no Instituto Ecofuturo, o escritor e mediador de leituras Reni Adriano conta-nos a origem da Biblioteca Nacional da Juventude. 

 


Jella Lepman e a maior biblioteca infantil e juvenil do mundo
Por Reni Adriano

Reni Adriano, escritor e mediador de leitura. Crédito: Blog pessoal
Reni Adriano, escritor e mediador de leitura. Crédito: Blog pessoal

Em meio aos destroços da Segunda Guerra Mundial, cuja atrocidade provocou um enorme amargor na espécie humana em relação aos próprios homens, despertando a desconfiança de que a razão por si mesma não pode salvar a humanidade, uma mulher cuidava de crianças órfãs.

Como grande cuidadora que era, ela enxergou na leitura e na literatura a possibilidade de reconstrução do mundo. Afinal, os homens não passaram ilesos nem impunes pela Grande Guerra, mas os livros, com toda a potência que carregam, permaneciam. Se era assim, o caminho seria formar, através dessas obras, futuros homens e mulheres que um dia teriam nas mãos a possibilidade de dar novas formas ao mundo.

Mas o mundo é de todos – ou melhor, somos todos – e ninguém pode mudá-lo sozinho. Nem um só livro, nem um só autor, nem uma só língua de um só indivíduo.

Assim, Jella Lepman juntou como pôde toda a prosa e a poética do planeta em um ônibus-biblioteca e realizou uma exposição internacional de livros infantis, em diversos idiomas, no ano de 1946. Estava plantada a semente da Biblioteca Juvenil Internacional de Munique, fundada em 1949, na Alemanha, sendo a maior biblioteca de literatura infantil e juvenil do mundo.

 

Jella Lepman juntou como pôde toda a prosa e a poética do planeta em um ônibus-biblioteca e realizou uma exposição internacional de livros infantis, em diversos idiomas, no ano de 1946.
Jella Lepman juntou como pôde toda a prosa e a poética do planeta em um ônibus-biblioteca e realizou uma exposição internacional de livros infantis em 1946. (Crédito: Reprodução)

 

São cerca de um milhão de títulos, em 120 idiomas. Todos os anos, a Biblioteca seleciona centenas de livros infantis e juvenis publicados em mais de 70 países. Crianças de todas as nacionalidades que visitam o acervo encontram literatura de qualidade em seu idioma – e ainda podem dar uma espiadinha ou escutadinha nas língua dos outros.

Aliás, é essa a intenção, pois a construção do mundo é poliglota.

Ao trazer livros para junto de crianças que perderam tudo na guerra, Jella Lepman acreditava no entendimento pelo encantamento entre diferentes povos e culturas. No encontro com as diferenças, descobrimos e construímos nosso modo de ser no mundo e por aí é que inventamos a isso que chamamos humanidade. Este continua sendo o mote dessa grande Biblioteca formadora de crianças e jovens.

Como grande cuidadora que era, Jella enxergou na leitura e na literatura a possibilidade de reconstrução do mundo. (Crédito: Reprodução)
Como grande cuidadora que era, Jella enxergou na leitura e na literatura a possibilidade de reconstrução do mundo. (Crédito: Reprodução/Blog Mujeres en la historia)

 

Desde 1983, a Biblioteca Juvenil Internacional de Munique está abrigada no Castelo de Blutenburg, construção de 1435 que, com a chegada do acervo, se tornou conhecida como “O Castelo dos Livros”.

Visão aérea do Castelo dos Livros. (Crédito: Divulgação)
Visão aérea do Castelo dos Livros. (Crédito: Divulgação)

Além da biblioteca, Jella Lepman idealizou também o International Board on Books for Young People – IBBY, organização internacional sem fins lucrativos para o livro juvenil. No Brasil, a entidade é representada pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ.

É criação do IBBY o prêmio internacional Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da Literatura Infantil e juvenil, que já contemplou as autoras brasileiras Lygia Bojunga (1982) e Ana Maria Machado (2000).